Ano 1
Capítulo 4 - Maria.
Bem, o que eu posso dizer? Ele era lindo, simpático, inteligente. A Ana se apaixonou rapidamente, mas eu posso dizer que isso não aconteceu comigo e que justamente isso foi um dos fatores que mudaram toda a história no final. Mas depois daquele dia em que vimos o Ivan e a Jane brigando, e depois do fim de semana no parque em que ela não apareceu, lá estava ele sentado atrás da Ana. No início ele só ficava lá, queto, mas depois começou a fazer perguntas, depois a conversar e depois a andar o caminho de volta com a gente. Sabe, não sei bem como nos tornamos amigos naquele momento, é aquele tipo de coisa que acontece e depois parece que foi natural. E eu via a Jane nos corredores e às vezes parecia que ela estava prestes a chorar. Eu tentei falar isso pra Ana, mas ela obviamente não prestou muita atenção. Além do mais, o Ivan correspondia a Ana. E eles realmente namoraram por um tempo. Mas eu ainda vou chegar nessa parte.
Claro que ele também não ficava colado com a gente o tempo inteiro, então podíamos seguir com as nossas supostas investigações, já que nós decidimos não contar nada sobre as minhas "habilidades". Seria melhor assim. E os desmaios? Sim, eu continuei desmaiando quando olhava pra ele muito intensamente, mas de um modo ou de outro eu consegui controlar depois de algum tempo. Na verdade, se eu não quisesse saber nada sobre ele, eu não desmaiava. Parece difícil, mas depois de anos treinando, eu conseguia fazer isso fácil. E quando a Ana queria saber se o que ele falava era mentira, arriscávamos quando ele não estava olhando. E eu desmaiava. Entende, eu não ligava pra isso na época. O mais difícil de tudo pra mim, no entando, era evitar de pensar na Jane. Ela certamente não parecia bem, mas ninguém parecia notar. E como se fosse carma, eu a via sempre. Eu comecei a vê-la tantas vezes pelos corredores que achei que ela estava me seguindo, e depois penseiq ue ela iria pensar isso de mim também. E por mais que parecesse casual, eu não conseguia ficar calma. Nesse momento eu acho que minha paranóia já deve estar bem clara. Eu conversei sobre isso com minha irmã e ela tentou me ajudar, mas era impossível que eu descobrisse alguma coisa, meus desmaios mais fortes agora eram com ela.
Continuei pensando sobre isso enquanto a vida corria e quando faltavam dois meses para o final do ano, eu desisti de tentar descobrir algo mais sobre a Jane sozinha, e então falei com minha irmã pra se aproximar dela. Não parece muito inteligente, mas acabou dando certo. Pensando bem, vendo tudo agora, eu sei que qualquer coisa que eu tentasse daria certo. Mas isso não importa agora. Enquanto minha irmã ficava amiga da Jane e a Ana e o Ivan estavam cada vez mais próximos, eu conheci a Maria. O que mais posso dizer? Ela basicamente salvou minha vida.
sexta-feira, novembro 20
Sereníssima #4
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quarta-feira, novembro 11
Sereníssima #3
Ano 1
Capítulo 3 - Sobre desmaios absurdos.
Estávamos agora encostadas no muro da escola, perto do portão e a Ana olhava pra mim. Discutíamos se era melhor ficar ali e esperar ou ir embora de uma vez, pelo outro lado da rua. Mas não, eu não queria fazer nenhuma das duas coisas, eu queria ficar e escutar. Bem, as pessoas podem ativar seu lado moralista nesse minuto e dizer que isso é invasão de privacidade. Mas eu já discuti isso mentalmente comigo mesma por vários anos e realmente eu não nasci uma pessoa com tantos escrúpulos assim. Logo, eu fui me arrastando pelo muro até conseguir uma boa visão dos dois e comecei a me concentrar. Sem contato visual é difícil, mas não impossível. E eu não corria o risco de desmaiar. A Ana se postou ao meu lado e começou a dar gritinhos histéricos, o que não ajudava em nada. Eu já conseguia escutar as vozes dos dois e alguns pensamentos já estavam próximos. E então, a coisa mais absurda aconteceu: desmaiei.
Digo absurda porque a situação era bem improvável. Longa distância e nenhum contato visual. As pessoas já haviam se dispersado quase totalmente, de modo que duas meninas que passavam ajudaram a Ana a me levantar e fomos pra portaria da escola. Alguma coisa estava errada e o nome da menina era Jane. Então era a Jane do parque, com o Ivan da festa e aquilo pra mim teria terminado ali se não fosse o fato dos meus dois demaios e a observação pertinente da Ana. É certo que a sua tendência a ficar observando avidamente a vida alheia pode ser irritante, mas em muitas horas ajuda. Dessa vez ela fez uma observação bem simples que até eu poderia ter feito se, como eu disse, não estivesse preocupada com meus apagos. nenhum dos dois estava ali há um mês atrás. E como ninguém notara isso? Nenhum comentáriozinho pelos corredores, nenhuma apresentação dos professores, em plena metade do ano? Bem, era estranho, o que não ajudou em nada. Agora além de querer saber porque eu estava desmaiando, queríamos saber de onde eles eram. A Ana disse que tinha um plano, mas eu queria ir embora. Não havia ninguém na rua e eu comecei a andar o mais rápido possível e já ia virando a esquina quando dei de cara com a Jane. Quero dizer, nós literalmente nos trombamos e ela acabou caindo de costas. Apesar de não conseguir enxergar muito bem, fui ajudá-la a se levantar e então a segunda coisa mais estranha aconteceu. Uma enxurrada de pensamentos me invadiu, todos dela, é claro, e só depois vi que ela nem me notara ou reconhecera. Estava chorando. Ela se desculpou e seguiu pela rua da escola. Eu fiquei ali parada sem saber se voltava pra contar à Ana o que tinha visto ou continuava. Por um momento me recostei no muro e analisei os pensamentos dela. Certamente estava triste porque o que quer que houvesse entre eles, um namoro, talvez, havia terminado e fora ela quem fizera aquilo. Algumas outras coisas também vieram, como ela saber meu nome e uma estranha visão dos dois conversando com alguém que eu não conhecia. Deixei essas coisas de lado e fui embora. Contaria tudo à Ana no dia seguinte. Achei estranho que continuássemos tentando descobrir a razão daquelas coisas que tinham acontecido, apesar de que a Ana conseguira colocar seu plano em prática e agora sabia que os dois haviam sido transferidos de alguma escola da capital por motivos obscuros, mas não sabíamos porque ninguém havia notado. Quando aos meus desmaios, parte da técnica era observar algumas pessoas com muito mais intensidade e ver se dava em alguma coisa. É claro que não deu em nada, e eu também não desmaiei mais. Víamos a Jane raramente, pelos corredores ou na biblioteca, mas o Ivan começou a ficar falado entre as meninas, como mais cedo ou mais tarde aconteceria. E então aconteceu a coisa que, com certeza, desencadeou todo o resto: eu e a Ana ficamos amigas do Ivan.
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quarta-feira, outubro 28
Sereníssima #2
Ano 1
Capítulo 2 - Ivan
Então. O nome dele é Ivan. E desde aquele desmaio bizarro na festa, eu não consegui lembrar de mais nada. Eu explico: é que eu vou lembrando de mais coisas com o tempo. Mas já faz uma semana e não consegui mais nada. Ivan. E eu perguntei pra Ana se ele continuou na festa, e ela disse que o viu rapidamente mas logo depois ele foi embora. Agora eu me pego odiando estar com isso na cabeça. Pelo menos estou conseguindo disfarçar. É claro que a Ana vai descobrir. Ela ocupa o tempo livre observando o jeito das pessoas, como eu. A diferença é que ela só consegue olhar pras partes físicas, faciais, visíveis.
Ontem eu e minha irmã fomos ao parque da cidade pra dar mais uma de nossas palestras. Isso foi idéia dela. É incrível a quantidade de pessoas nessa cidade que não têm a mínima consciência ecológica. Então a Jane resolveu tentar fazer alguma coisa com as crianças da escola dela. Agora, depois de umas três semanas, já aparecem algus adultos tímidos. Ontem, particularmente, havia umas trinta pessoas, e todas resolveram colaborar. Eu aproveitei que não conseguia tirar o tal Ivan da cabeça, pra não me desviar ainda mais com a grande quantidade de pessoas.
Deu certo. Mas a Jane percebeu. E ela sabe. Ela também é assim e ficou insistindo que eu devia procurar saber quem era a pessoa, já que a reação fora tão forte. Eu ignorei. Da última vez foi um desastre e não quero mais essas confusões pra mim.
Dois anos atrás, eu andava pela rua quando dei de cara com uma menina. Quase nos atropelamos e assim que ela olhou pra mim, eu desmaiei. A moça da loja em frente me ajudou e logo que consegui ficar de pé, surgiu aquela obsessão. Eu tinha que saber quem era ela, e porque seus pensamentos eram tão turvos. Em dois dias eu sabia tudo sobre ela. Na verdade, alguns de seus pensamentos eu podia ouvir durante a noite. E não eram nada bons. Enfim. Não quero lembrar disso de novo. Ela morreu.Agora, imaginei meu pânico se algo acontecesse de novo. Sério. Mais um dia numa sala de terapia e eu enlouqueço. Uma menina estava perguntando algo pra Jane e eu percebi que ela estuda junto comigo. Fiquei pensando que ela devia ser mais nula que eu naquela escola, pois não conseguia lembrar de seu rosto. Mas seu nome é Julia. Já é um começo. Fomos pra casa já era fim de tarde.
Hoje, no fim das contas, o dia não foi nada bom. E agora também não está. Estou lutando contra todas as forças pra não colar as respostas da mente do professor. Sim, eu faço isso. A Ana acha que sou idiota, mas eu digo pra ela que tudo que vem fácil demais não é interessante. Ela simplesmente revira os olhos. Bem, acabou. Já estávamos saindo pelos portões quando a Ana me deu uma intensa cutucada pelas costas e eu já ia revidar quando avistei os dois, eles estavam claramente discutindo na esquina no quarteirão. Claro que a Ana queria saber quem era a menina, mas rapidamente ela me afastou na direção contrária. Com certeza ela não queria que eu desmaiasse de novo.
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domingo, outubro 18
Sereníssima #1
Ano 1
Capítulo 1 - Considerações.
O que eu odeio mesmo são as pessoas que me olham como se eu fosse de outro planeta quando digo que não bebo. Claro, um golinho de algumas coisas selecionadas, de vez em quando. Mas não no sentido de beber, beber. Daí as pessoas me olham como se eu estivesse dizendo que odeio a minha mãe. Fobia da sociedade em momentos assim.
Como era de se esperar, eu não via mais a Ana. Ela com certeza estava beijando alguém em algum lugar, e depois esperaria por quinze dias que o fulano desconhecido ligasse de volta. É incrível como ela não aprende. E eu estava ali parada observando as pessoas. Tinha muita gente que eu realmente não gostava ali naquele lugar. Mas havia também muitos desconhecidos.
É interessante observar desconhecidos. Eu faço isso desde sempre, eu acho. E, claro, desde sempre eu desmaio. Ninguém sabe explicar o que é isso que eu tenho. Simplesmente quando presto atenção em algumas pessoas por muito tempo eu apago. Bem, eu não conto pra todo mundo o que realmente acontece comigo quando isso acontece, por isso que ninguém sabe o que é. E se alguém soubesse, de duas uma: ou me achariam louca, ou não ficariam perto de mim nem por 1 minuto. Também, não faço isso o tempo todo. Não é sempre que estou disposta a desmaiar.
Alguns colegas vieram falar comigo. Com certeza eu parecia que não estava curtindo a festa, mas eu também não gosto de demonstrar o que sinto. E eu estava, sim, gostando daquilo. Os dias estavam tão maçantes que eu me animava com qualquer coisa.
Tentei esperar pela Ana mais alguns minutos. Inútil, ela não apareceria tão cedo e eu sabia disso. Andei até o banheiro sozinha mesmo, demorei alguns minutos observando os objetos. Azulejos pretos e peças prateadas e detalhes brancos.Saí, e enquanto andava, alguma coisa me chamou a atenção e logo eu estava olhando fixamente pro outro lado da sala. Dessa vez foi inevitável e eu logo desmaiei.
Era querer demais que a noite estivesse tão calma.
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Sobre meu novo conto:
Sereníssima, descaradamente baseado na música do Legião Urbana de mesmo nome.
Começo incerto, fim indefinido.
Está mais pra um romance, ou novela, do que pra um conto.
Enredo sujeito a mudanças drásticas durante sua construção.
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