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domingo, outubro 18

Sereníssima #1

Ano 1

Capítulo 1 - Considerações.

O que eu odeio mesmo são as pessoas que me olham como se eu fosse de outro planeta quando digo que não bebo. Claro, um golinho de algumas coisas selecionadas, de vez em quando. Mas não no sentido de beber, beber. Daí as pessoas me olham como se eu estivesse dizendo que odeio a minha mãe. Fobia da sociedade em momentos assim.
Como era de se esperar, eu não via mais a Ana. Ela com certeza estava beijando alguém em algum lugar, e depois esperaria por quinze dias que o fulano desconhecido ligasse de volta. É incrível como ela não aprende. E eu estava ali parada observando as pessoas. Tinha muita gente que eu realmente não gostava ali naquele lugar. Mas havia também muitos desconhecidos.
É interessante observar desconhecidos. Eu faço isso desde sempre, eu acho. E, claro, desde sempre eu desmaio. Ninguém sabe explicar o que é isso que eu tenho. Simplesmente quando presto atenção em algumas pessoas por muito tempo eu apago. Bem, eu não conto pra todo mundo o que realmente acontece comigo quando isso acontece, por isso que ninguém sabe o que é. E se alguém soubesse, de duas uma: ou me achariam louca, ou não ficariam perto de mim nem por 1 minuto. Também, não faço isso o tempo todo. Não é sempre que estou disposta a desmaiar.
Alguns colegas vieram falar comigo. Com certeza eu parecia que não estava curtindo a festa, mas eu também não gosto de demonstrar o que sinto. E eu estava, sim, gostando daquilo. Os dias estavam tão maçantes que eu me animava com qualquer coisa.
Tentei esperar pela Ana mais alguns minutos. Inútil, ela não apareceria tão cedo e eu sabia disso. Andei até o banheiro sozinha mesmo, demorei alguns minutos observando os objetos. Azulejos pretos e peças prateadas e detalhes brancos.Saí, e enquanto andava, alguma coisa me chamou a atenção e logo eu estava olhando fixamente pro outro lado da sala. Dessa vez foi inevitável e eu logo desmaiei.
Era querer demais que a noite estivesse tão calma.

__

Sobre meu novo conto:
Sereníssima, descaradamente baseado na música do Legião Urbana de mesmo nome.
Começo incerto, fim indefinido.
Está mais pra um romance, ou novela, do que pra um conto.
Enredo sujeito a mudanças drásticas durante sua construção.

segunda-feira, junho 22

Segundos Eternos - Parte 8

- Isso já faz tanto tempo, querida.
- Mas conta, quero ouvir de novo.
- Está bem. E então, depois de todo aquele tempo...
- Não, não... Você já pulou a melhor parte!
- Ah... Você quer do início?
- Sim. Do início.



Fazia frio no hospital.
Havia horas, nenhum médico dava informações e a cirurgia já contava 10 horas.
Ele estava lá, sozinho, na sala de espera. Estava lá, porque ela ainda estava ali, presa, e daquela vez ele não iria abandoná-la.
Ele dormiu, e seus sonhos eram confusos e tristes e sombrios.

Um dos médicos apareceu logo pela manhã e disse que ela havia sobrevivido à cirurgia. Ele podia vê-la? Sim, mas apenas dali a algumas horas. Era insuportável a espera, ele queria naquele minuto, naquele segundo. Mas o médico continuou falando que o estado dela era grave, que eles devia esperar e ver se ela iria acordar.

Mas ele sabia que ela iria acordar. Agora, não agora, ela não iria morrer porque ele não deixaria.

As enfermeiras fizeram com que ele se acalmasse e o levaram ao quarto.

Ela estava lá, ligada a centenas de aparelhos. E não respirava sozinha.

E então, durante dias, ele ficou sentado ao lado dela e por mais que tentassem tirá-lo dali, ele não se afastava.

Era o momento que ela mais precisava dele. E ele falava, e contava coisas que eles fizeram juntos, e à noite, sussurrava para que ela sonhasse, dizia as coisas que não havia dito naquele domingo, as coisas que o mantinham ali contra todas as esperanças dos médicos.

Era uma terça-feira e faziam já vinte dias que ela não apresentava nenhuma mudança. Ele estava segurando sua mão, pedindo que ela acordasse porque ele precisava ouvir sua voz novamente.

E ele segurava tão forte e pedia com tanta intensidade em meio às lágrimas que a enfermeira de plantão, olhando aquilo, não achava que poderia aguentar ver o sofrimento dele. E quando ela virava as costas pra deixar o quarto, um dos aparelhos emitiu um som diferente, e depois outro, e outro.
A enfermeira se virou e apertou o botão de emergência, indo para o lado da cama onde ele estava e pedindo que ele se afastasse.

Dessa vez vieram várias enfermeiras e médicos novamente, mas ele ficou no quarto. Deixaram que ele ficasse porque daquela vez não era um ataque cardíaco.
Rapidamente, o quarto ficou vazio novamente, restando somente o médico e a enfermeira.

- Ela está respirando sozinha, mas isso pode não ser estável. Ela não saiu do coma, você entende? Ela pode nunca sair, e ficar assim o resto da vida ou então você pode autorizar...

Mas ele não estava ouvindo mais. Ela estava respirando. Ela iria acordar. E ele a manteria viva até que isso acontecesse.



- E depois?
- Já está tarde e você precisa descansar. Amanhã eu conto o final.
- Mas...
- Mas nada. Amanhã eu conto. Vou buscar o seu remédio.

Ele saiu do quarto. Já fazia tanto tempo, e ela continuava a mesma. Só que agora ela realmente estava morrendo.

Mas dessa vez ele não tinha medo. A vida, afinal, fora justa. E logo eles estariam juntos novamente.

Ele pegou o remédio que mantinha as dores afastadas. Naqueles dias, a dor dela era insuportável e a única coisa a se fazer era esperar pelo fim.

- Aqui, querida. As dores já vão passar.
- Não dói mais, meu bem. Você vai me contar o final agora?
- Precisa ser agora?

Ela pegou o rosto dele entre as mãos enrugadas. E ao olhar nos olhos dela ele soube.

Ela estava morrendo.

- Eu não quero que você vá.
- Me conta o final, eu não me lembro mais.
- Os médicos queriam desligar seus aparelhos, mas eu não deixei. Depois que você voltou a respirar eu sabia que acordaria também. Eu saí do hospital, naquele dia, e fiz tudo o que você estava fazendo por nós enquanto eu estava na clínica. E todos os dias depois do trabalho eu ia te visitar no hospital. As enfermeiras já estavam acostumadas comigo e me deixavam dormir no seu quarto sem que ninguém soubesse. Mas passaram-se quatro meses e você não acordava. O diretor do hospital veio falar comigo. Ele disse que era muito caro manter você viva sem nenhuma perspectiva de melhora. Então eu disse pra ele se manter afastado de você e saí do hospital porque eu precisava manter seus aparelhos ligados de qualquer modo. Eu sabia que você iria acordar. E eu consegui. A diretora da clínica me ajudou a entrar com uma ação judicial que obrigou o hospital a manter você viva.
- Eu gosto dessa parte. - A voz dela estava tão distante. - Continua.
- Depois daquilo, então, eu passava mais tempo com você. E então, num domingo à tarde, sem nenhum aviso, você abriu os olhos e eu achei que era algum reflexo, mas você continuou com os olhos abertos, e disse meu nome.
- Eu me lembro agora, e logo o quarto estava cheio de médicos e enfermeiras.
- Sim, parecia que todo o hospital estava lá. E depois daquilo, nada mais importava pra mim além de você e toda a nossa vida que começava.

A respiração dela estava mais lenta e sem perceber, ele segurava sua mão com força.
Ela olhou pra ele novamente.
- Que bom que você não desligou os aparelhos.
- Eu nunca te abandonaria de novo.

- Eu te amo, meu bem. - Ela já não estava mais ali.

- Eu também te amo, minha querida. Nos encontraremos logo, logo.


Fim.

domingo, junho 7

Segundos Eternos - Parte 7

Era uma manhã de domingo e fazia sol.

Ela se levantou. Feliz.
Era como quando eles se encontravam no parque, mas agora ela que ia vê-lo.

Desde que ele foi transferido, ela levava o café da manhã nos fins de semana e eles ficavam sentados no jardim, conversando.
Naquele dia ela notou algo diferente, ele estava ansioso. Ela sabia porque suas mãos estavam inquietas ao lado do corpo. Era assim que ele sempre ficava.

Então ele finalmente falou, queria que ela soubesse de algo.
Mas ela não queria falar sobre aquelas coisas, ela queria esquecer.
Ele insistiu e revelou aquilo que ela já sabia.

O sol passava por entre os galhos das árvores e formava desenhos estranhos no chão. Ela se perdeu em pensamentos, lembrando do acidente, do diagnóstico, dos médicos e de todas as salas de exames e de toda a força que foi necessária para que ela o perdoasse.

E ela o perdoou.
E quando ela se virou, sorrindo pra ele, e pediu que ele esquecesse do passado, seus olhos estavam tão brilhantes, tão claros, que ela pensou que se lembraria deles pra sempre.


Quando acabou o horário de visitas, eles se despediram e ela foi embora.

Dias assim, ela pensava enquanto dirigia de volta pra casa, eram como pequenos pontos na existência. Eram dias únicos, dias que as pessoas acham que nunca vão acontecer. E contra todas as coisas, eles acontecem.

A estrada estava calma e em cinco minutos ela estaria entrando na cidade. Seus olhos se fecharam por um segundo e ela se sentiu tão cansada, seus braços estavam tão pesados.

De repente, ao começar a fazer a última curva, ela sabia. Ela tinha que parar o carro, tinha que encostar e parar e esperar que passasse.

Mas ela estava tão cansada. Tão cansada que seria bom dormir por alguns instantes e esperar que aquela tonteira passasse.

Ela não sabia mais onde estava, seu corpo ficou pesado e então tudo era escuridão.



Ele acordou e imediatamente se lembrou. Ela estava no hospital, em coma.
Ele quis se levantar quando uma enfermeira colou uma mão em seu braço e disse que ele se acalmasse.

A diretora da clínica entrou no quarto e falou que o acompanharia ao hospital, porque ele ainda não podia ficar sozinho.

Ele agradeceu e elas o ajudaram a se arrumar.

Chegaram ao hospital à noite, e um médico veio recebê-los.

- O estado dela é muito, muito delicado. Pelo que sabemos ela estava fazendo uma curva, quando desmaiou. O carro rodou na pista e foi de encontro a um caminhão que vinha no sentido oposto. Ela foi retirada das ferragens ainda com sinais vitais e já passou por uma cirurgia. Estamos esperando que ela acorde ou que os aparelhos indiquem alguma alteração, mas até agora não temos melhoras.

O médico ainda respondeu a algumas perguntas da diretora, mas ele não quis escutar.

Aquilo não estava acontecendo. Ele tinha falado com ela, estado com ela a menos de um dia e ela estava bem. Aquelas crises não apareciam mais. Não deviam aparecer nunca mais. O que era aquilo agora?

Ele queria vê-la. Tinha que vê-la. Ela estava viva, estava bem.

Ele começou a andar pelo corredor na direção do quarto dela. Ia vê-la de qualquer maneira. Os médicos não o impediram, foram com ele até o quarto.

Ela estava lá, frágil, machucada, respirava com a ajuda de máquinas.
Ele segurou sua mão devagar. Queria dizer algumas coisas mas percebeu que todas as coisas já haviam sido ditas. A única coisa que ele dizia agora era que ela ficasse bem, que ela acordasse.

Ficaram assim um longo tempo. Os médicos saíram do quarto, restando somente a diretora da clínica. De repente um bipe estranho das máquinas fez com que ele se levantasse de um salto. Algo estava errado. O bipe estava cada vez mais rápido e então parou, tão de repente quanto tinha começado. O coração dela não estava batendo.

O quarto foi logo inundado de enfermeiras. Ele queria ficar, queria ver o que fariam com ela, mas alguém gritou para que o levassem dali, e ele foi arrastado até a porta. A mulher o segurava com força quando fecharam a porta, e então ele não ouvia mais nada.

domingo, maio 31

Segundos Eternos - Parte 6

Tudo começou casualmente, e então se tornou algo sério, algo irrevogável.

De vez em quando ele pensava nisso. Quando eles estavam juntos ele pensava nisso sempre e depois que eles se separaram, não mais.

Agora ele se via com os mesmos pensamentos de antes.

Ela tinha voltado.


Do hospital ele foi internado em uma clínica de reabilitação. 30 dias e estaria livre.
Agora só faltavam 20. E ela vinha todos os dias, dirigindo o carro dele emprestado, porque o lugar era afastado da cidade.

Mas ela vinha e tinha sempre um sorriso, sempre aquela bondade.

Nos primeiros dias foi difícil, é claro. Ele nem sabia onde estava, ou quem ele era.
Depois ele voltou a reconhcê-la.
Ela não desistiu. Ela vinha e eles conversavam.


E quando ele ficava sozinho, ele pensava.
Ele revia cada cena. Se ele não a tivesse culpado pelo que aconteceu, nenhuma daquelas outras coisas terríveis teriam acontecido. Mas será que ele tinha culpa de ter pensado aquelas coisas?
Ele ficou ressentido, ele ficou com raiva.
Talvez a raiva fosse de Deus e ele simplesmente descontou nela.

E isso não estava certo. E ele resolveu que falaria tudo pra ela.


Era uma manhã de domingo e fazia sol.
Ela chegou e tomaram o café da manhã juntos.
Estavam sentados em um banco nos jardins, quando ele a fitou e reuniu toda a coragem de que dispunha.
Eu quero que você saiba de uma coisa. E o que é?. Naquela época eu... Por favor, esquece essas coisas. Não, eu quero que você saiba que eu te culpei quando você sofreu o aborto mesmo sabendo que foi por causa daquele seu desmaio.

Ele falou muito rápido e abaixou os olhos. Não queria olhar pra ela.
Mas não resistiu, e viu que ela fitava algum ponto do outro lado do jardim.

Eu sei e eu te culpei por muito tempo, mas agora eu acho que isso não é importante mais. Então você me perdoa?.

Ela olhou pra ele novamente com aquele sorriso que era a coisa que ele mais amava e aqueles olhos brilhantes.

Sim, somente se você esquecer isso. Eu esqueço, então.

E ele pensou que se lembraria daquele sorriso pra sempre.


Depois ela teve que ir embora, porque como sempre não era permitida a permanência muito prolongada de visitantes.
Mas ela voltaria no dia seguinte, como sempre, e naquela noite ele dormiu e, pela primeira vez em meses, não teve nenhum sonho, nenhum pesadelo.


No outro dia ela não apareceu. Ele perguntou na recepção se havia algum recado, e a moça disse que não.
Aquilo não era bom. Ele precisava dela, ela tinha que estar ali.

Durante a tarde ele foi ficando cada vez mais tenso, até que, depois de um sem número de idas à recepeção, e de receber a mesma resposta, seu estado era tão perturbado que a médica encarregada mandou que lhe dessem um sedativo.

E os pesadelos voltaram. Vozes e sombras e um tumulto no quarto, mas ele não conseguia se levantar. Efeito do sedativo. E alguém dizia que ele deveria continuar sedado ou todo o tratamento estaria perdido. E alguém disse que ele não poderia saber. O que ele não poderia saber? Ele queria abrir os olhos e gritar até que houvessem respostas. Mas era tudo um sonho e ele se sentia tão cansado e tão desesperado e lentamente as sombras foram se aproximando novamente até que ele não escutou mais nada.

Ele podia sentir a luz machucando seus olhos por sobre a pálpebra fechada.
Sem abrir os olhos ele se sentou e ficou ali, respirando até se sentir com forças suficientes para se levantar.
Abriu os olhos e foi para o corredor. Estava vazio. No relógio do criado-mudo ele viu que já era tarde e se lembrou de que ela já estaria esperando que ele se levantasse.
Ele saiu e foi até a recepção. Ao vê-lo, a moça assumiu um tom reservado. Quando ele perguntou por ela, a moça pegou o telefone e discou um número qualquer.

Uma enfermeira entrou por uma das portas e lançou um olhar ansioso à recepcionista.

Alguma coisa estava errada. Ele perguntou o que estava acontecendo e nenhuma delas respondeu. A médica encarregada apareceu por onde ele tinha entrado e o segurou pelo braço, chamando até a sua sala.

Ele gritou. Ele queria saber o que estava acontecendo.

A médica fechou a porta, mas eles não estava sozinhos. Dois enfermeiros estava lá, também. Ele estava cada vez mais tenso. A médica pediu que ele se sentasse. Ele continuou de pé e exigiu alguma explicação. Ele queria saber onde ela estava e porque ele não podia vê-la.

A médica começou a falar. E foi breve.


Depois disso ele não lembrava de muita coisa. Algo sobre um acidente, sobre um hospital. Ela estava no hospital. Coma. Sofreu um acidente grave e foi retirada levada às pressas assim que conseguiram retirá-la da ferragens. Coma. Ela precisava dele, de novo, e ele não ia deixá-la sozinha. Não dessa vez. Ele saiu pela porta e queria fugir dali. Precisava fugir.

Mas foi detido. Mãos o derrubaram ao chão e ele tentou se libertar. Mas sentiu a agulha em seu braço e segundos depois tudo era escuridão novamente.

sábado, maio 23

Segundos Eternos - Parte 5

Ela não sabia o que fazer.
Eram tantas coisas.

E o passado não importava mais.

Ele continuava tão triste, tão misterioso. Eu não queria ter ido embora porque você me faz muita falta. Mas você não disse nada e você não fez nada. Você simplesmente me olhou enquanto eu saía por aquela porta. Sem dizer adeus, eu não olhei para trás porque você iria ver minhas lágrimas.

Ele não dizia mais o nome dela.
Eram emoções sem fim.

Ela continuava tão linda, tão triste. Eu não conseguia olhar nos seus olhos porque a culpa de todo sofrimento que causei é minha. Não podia te pedir que ficasse mesmo querendo que você não fosse embora. Eu nunca vou me perdoar e sem isso não posso pedir o seu perdão, então deixei que você saísse.

Ela não queria chorar. Você nunca aprende nada? Você nunca se entrega, você quer fazer tudo sozinho. Eu estive do seu lado em todos aqueles momentos e a única coisa que eu queria era que você olhasse para mim, que você chorasse comigo, que você sofresse junto comigo e não me mandasse embora.

Ele queria poder se levantar e ficar mais perto dela. Eu não podia ver a dor nos seus olhos. Você não entende? Tudo o que eu sempre quis foi te fazer feliz, te fazer a mulher mais feliz desse mundo, e te ver sofrendo é como um peso dentro do meu peito.

Ela sabia que chorar seria agora inevitável. Eu nunca te culpei de nada, mas eu não conseguia te dizer essas palavras porque você se afastou, você quis que eu fosse embora e eu achei que tinha te perdido.

Ele se lembrava do toque suave das mãos dela no seu rosto. Eu não quero mais ficar longe de você. Eu nunca quis, mas só agora eu posso ver nos seus olhos o maior erro que cometi. Eu te amo. Não vá embora.


O passado não importava mais e ela também não conseguia mais ficar parada na porta somente olhando para ele, sem dizer uma palavra.

O quarto estava silencioso e ele não disse mais o nome dela, só ficou olhando aquele rosto banhado de lágrimas.

Ficaram assim sem saber ao certo por quanto tempo. Porque o tempo não existia mais. O mundo estava parado e era assim que devia ser.

Ele não sabia como mas ela estava nos seus braços. E chorava. E dizia coisas confusas que ele não conseguia entender, mas que sabia ser as mesmas que ele queria dizer.

O tempo não importava mais porque ela estava novamente em seus braços.

Mas dessa vez seria diferente.
Ele não a deixaria ir embora.

sábado, maio 16

Segundos Eternos - Parte 4

Sonhos confusos e visões e luzes.
Ele não sabia onde estava. Não estava entendendo.

E também não se lembrava de nada.
Sentia uma dor insuportável, como se mil agulhas saíssem da sua cabeça.
A garganta estava seca, ele não sentia o corpo.
Haviam vozes, mas ele queria que elas parassem, estavam aumentando a dor.

Alguém o virou de lado e ele percebeu com dificuldade que vomitava.
Alguém gritou e ele soube que não iria aguentar mais.

As luzes se apagaram e o som ficou distante até desaparecer.
Era tudo escuridão.


Ela chegou praticamente junto com a ambulância. Estava dizendo que fora ela quem ligara pro hospital quando alguém que parecia ser um médico a puxou de lado.
Ela se virou e viu ele caído no chão, perto do telefone. O homem lhe dizia que ele seria levado imediatamente para o hospital e perguntou se ela queria ir junto.
Ela queria. Ela não podia mais ficar longe.

Ela chegou perto e as lágrimas lhe vieram aos olhos. Ele parecia morto, parecia muito mal.
De repente um dos enfermeiros o virou de lado e ele vomitou.

Ela gritou e o homem que a levara até ali fez com que ela se afastasse.
Ele disse que ela devia ir pra ambulância. Eles já o colocavam na maca e ficaria tudo bem.


Mas ela sabia que não ficaria tudo bem. Nada estava bem.
Alguém a colocou no carro e segundos depois eles partiam.

Parecia que estava rodando a horas, quando chegaram no hospital.
Ela seguiu os enfermeiros até a sala de internação, mas não a deixaram entrar.

Não a deixaram entrar e ela ficou do lado de fora. Ficou lá até que não teve mais forças.
Ela dormiu. E tudo era escuridão.



Ele abriu os olhos e a primeira coisa que fez foi tentar se levantar. Não sabia onde estava, não se lembrava de nada.
Mas alguém o deteve e com voz gentil disse que ele precisava ficar deitado porque ele ainda estava se recuperando.

Estava num hospital. O corpo doía. A cabeça doía.
Ele queria se lembrar mas era tão difícil. Parecia que algo terrível acontecera.
Sua boca estava seca e ele pediu água.
A enfermeira trouxe e disse que ia sair, mas que logo voltava. Disse que ele precisava descansar e que não se levantasse, que dormisse.

Ele fechou os olhos. Estava se sentindo derrotado.
Ele fechou os olhos e não pôde mais aguentar e chorou até que as lágrimas cessaram. Chorou sem saber porque, porque ele não se lembrava.

Ele fechou os olhos e dormiu e não teve sonhos nem pesadelos e quando acordou ela estava ali.

Estava parada ao lado da porta, pálida, triste e cansada.
Ele olhou em seus olhos e não sabia o que estava vendo. Quis dizer algo mas nada saía.
Ele pensou naquele momento várias vezes e nas coisas que diria, mas agora não conseguia dizer nada.

Então ele se lembrou. Flashes de luz passavam por sua mente enquanto ele via tudo com clareza.
Havia ligado pra ela e ela respondeu.

Era seu nome que ela ficara chamando enquanto ele sentia aquela vertigem estranha e tudo parecia desabar.


Ele ficou olhando nos olhos que conhecia tão bem e a única coisa que disse foi o nome dela.

sábado, maio 9

Segundos Eternos - Parte 3

Não, ela não queria mais sofrer e decidiu esquecer o passado.

Agora ela estava bem. Não tinha mais pesadelos. Não ficava perdida em recordações confusas.
Conseguia se sentir normal no meio das pessoas.
Não que ela quisesse ser o exemplo da normalidade, mas aquele sentimento era necessário para que ela tivesse sua paz de espírito.

O mundo andava bem e aquele tinha sido um dia como todos os outros.
Ela voltava pra casa devagar e sentia uma certa satisfação, aquele sentimento que já a acompanhava havia semanas.

Mas não era satisfação por ter recomeçado. Ela não conseguia perceber, no frenesi de fugir da dor, que só colocava as lembranças e os sentimentos em um lugar que ela pretendia esconder de si mesma e esquecer.
E ela estava longe de esquecer. Estava tão longe disso que não tinha mais pesadelos, sim, mas não tinha pesadelos por não conseguir mais dormir.
E todos os dias depois de viver anonimamente, ela voltava pra casa devagar, porque lá ela ficaria sozinha com seus pensamentos e fantasmas.

E naquele dia não seria diferente.

Mas ela tinha aprendido a ignorar tudo que não fizesse parte da sua nova vida. E desse modo conseguia adiar os momentos de tristeza e depressão usuais.

Ela resolveu terminar um dos trabalhos naquela noite. Sabia que era a melhor e sabia que se fizesse tudo certo teria oportunidade de sair daquela cidade.
Era um momento perfeito.
Ela sairia dali e tudo então ficaria ainda melhor.

A noite já ia alta na casa escura e ela havia adormecido sobre os papéis.
Sonhos confusos se alternavam em sua mente quando ela ouviu muito ao longe o som do telefone. Pensou que aquilo também fizesse parte do sono, mas de repente estava completamente desperta. E o telefone ainda tocava.

Ela atendeu e a única coisa que ouviu foi uma música ao longe e quando já ia desligando, ouviu seu nome do outro lado.

Ela disse alô novamente e a voz que escutou trouxe de volta todas as lembranças que ela queria esquecer.
Involuntariamente ela disse o nome dele.
Mas alguma coisa estava errada. Ele só chamava seu nome como se não percebesse que ela estava respondendo.

E ela sentiu de novo aquele sentimento que a assaltava quando eles ainda estava juntos e fazia com que ela soubesse que ele não estava bem.

Ele não estava bem e ela o chamou com urgência.

Tudo o que ouviu, porém, foi um barulho surdo do outro lado. E a música que continuava a tocar.

sábado, maio 2

Segundos Eternos - Parte 2

Era uma manhã de domingo.
Ela fazia como sempre o mesmo caminho da Igreja de volta pra casa, sem pressa, observando as pessoas que andavam pelo parque, a luz do Sol que refletia no lago.

Naquele dia ela escolheu um lugar diferente onde pudesse ficar sozinha.
Estava sentada já a alguns minutos quando abriu os olhos e deu com ele sentado ao seu lado.

É claro, ela ainda não sabia quem ele era, mas mesmo assim sorriu de volta, respondendo o cumprimento. Ele quis conversar, enquanto ela queria ficar sozinha. Ele queria ficar, ela queria ir embora.

Ficaram os dois olhando o lago, quando ela se levantou desculpando-se rapidamente, e retomou o caminho de casa.

Ele ficou sentado. Ficou olhando o lago. Era estranho conversar com alguém desconhecido assim, sem saber exatamente o que falar. Mas agora não importava. Importava somente que havia ganhado a aposta. Naquela noite ele reproduziria o áudio entre seus amigos. Havia ganhado.


Era outro domingo e ele continuava igual ao anterior.
E lá estava ele, esperando que ela passasse.
Dessa vez não havia aposta. Dessa vez não havia microfones.
Sem saber porque ele não conseguia parar de pensar na garota do parque. A semana ia bem até que ele a viu novamente, sem querer. E daquele momento em diante ele só pensava na primeira vez que a viu.

Quando ela se recostou no banco e fechou os olhos, ele já estava a seu lado.

Dessa vez ela percebeu que havia alguém ao seu lado e abriu os olhos. Era ele.
Claro que ela se lembrava. Achou estranho que alguém viesse lhe falar subitamente, principalmente numa cidade onde as pessoas mal se cumprimentavam.

Ela sorriu e resolveu que dessa vez queria conversar.
Ele sorriu e resolveu que voltaria no domingo seguinte.


Todos os domingos eram iguais. No seguinte, e depois, e depois.
Mas agora haviam também os sábados, as sextas e todos os outros.

Ele descobriu que não queria se afastar. Descobriu que não era apenas uma aposta.
No dia do aniversário dela, ele a levou no cais antes do anoitecer e lhe deu uma única flor. Uma rosa. Tão vermelha que contrastava com a pele branca dela.

Quando ganhou a rosa, ele lhe disse algo que ela não ouviu.

Ela o beijou, sem pensar. Deixou que a rosa escorregasse de seus dedos enquanto ele a abraçava.

Os dois não pensavam em nada. Tinham medo daquele momento desaparecer.



A rosa caiu, e foi levada pelo mar.

domingo, abril 26

Segundos Eternos - Parte 1

Ele andava perdido.
Fugir não mais adiantava e ele acabou percebendo que a única coisa que o salvaria era ela.
Mas ela se fora. Assim como tudo de bom que um dia havia existido, ela se fora.
Durante dias e dias e semanas ele procurava em si mesmo forças que o mantivessem de pé.
Aquilo era um pesadelo e logo iria acabar.

Mas o pesadelo continuava e ele não mais dormia.
E ele só pensava nos erros, na destruição do que fora perfeito.
Ele só via a culpa. E a culpa era uma sombra que sempre o perseguia, sempre o sufocava.
Nos dias que ele não conseguia respirar, então a casa se impregnava de um barulho ensurdecedoramente alto, de uma fumaça insuportavelmente espessa, de um cheiro repugnantemente acre.
Porque de um modo ou de outro, ele queria parar as vozes em sua mente, as batidas frenéticas no coração, as visões que nunca o deixavam em paz.

E foi num momento assim que ele pegou o telefone e ligou pra ela.

Pra quê, nem ele mesmo saberia dizer. Apenas o número estava lá a tempos e sobriamente ele não tinha coragem de fazer o que precisava ser feito e naquele momento tudo que ele queria era ouvir a voz que tanto lhe fazia falta.

O telefone tocava, e pra ele a espera parecia interminável. De repente ele teve medo que ela não atendesse. Que ele não soubesse o que dizer.

Ele estava entrando em pânico quando ouviu o barulho no outro lado, e em seguida, a voz que ele tanto queria escutar. Que ele tanto precisava.

Alô, ela dizia.
E ele chamou seu nome, uma única vez.
Alô, ela continuava dizendo, agora como se reconhecesse quem lhe chamava.

Mas ele não mais escutava.
Tinha caído no chão e seu coração batia assustadoramente rápido e sua respiração era ainda mais difícil do que quando ele começara com a mistura insana de todas as noites.

Então ele não mais enxergava nem ouvia o som que vinha de longe.
A voz que ele tanto queria escutar, chamando seu nome mais uma e outra e outra vez do telefone que ainda balançava.

domingo, junho 8

Ela.

os olhos se fecharam num espasmo de dor
e ela não sabia mais o que pensar
sua mente lhe mostrava imagens confusas
o passado e o presente se fundindo em um só momento
apertou os dentes
a primeira vez que lhe dissera eu te amo
segurou o lençol com mais força
a primeira vez que se entregou
sentiu o calor de sua mão sobre a sua
tão fria e pálida
as noites tranquilas na praia
ainda a pouco conseguiu proferir algumas palavras
mas agora já lhe velava o silêncio
os dias de sol nas montanhas
e os olhos permaneciam fechados
porque se os abrisse eles ficariam fixos e vidrados no teto
tamanha era sua dor
sorrisos e flores da manhã em que se casou
podia sentir o suor a escorrer-lhe pela fronte
e pensava com desespero se em sua fragilidade poderia um dia embalar a vida
perdidos eram os seus pensamentos
quando não mais podia sentir os próprios movimentos
mas ainda podia sentir a dor
e esta trazia de volta momentos que já haviam se passado
a tempos, a uma vida inteira
e eram flashes e luzes que se mesclavam
tardes de chuva
segundos de prazer
apesar do sofrimento que sentia agora
era lindo pensar que tudo o que haviam feito
haviam-nos conduzido àquele instante
e principalmente ela
experimentou soberano à dor
aquele amor que se fazia presente na pior das tempestades
não podia sorrir
mas seu espírito já se encontrava feliz